Spillover: entenda como a ação humana na Amazônia facilita a transmissão de novos vírus
24/04/2026
(Foto: Reprodução) Além da Dengue: como novos vírus que podem emergir da Amazônia
Sob a maior floresta tropical do planeta, está uma imensa diversidade de formas de vida — incluindo vírus ainda desconhecidos pela ciência. Esse conjunto, chamado de “virosfera”, evolui em equilíbrio com os ecossistemas naturais há milhões de anos. No entanto, o avanço de atividades humanas, como desmatamento, abertura de estradas e fragmentação de habitats, está alterando esse cenário e aumentando o risco de contato entre pessoas e agentes patogênicos.
📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp
Para entender essa dinâmica, o Terra da Gente ouviu o virologista José Luiz Proença Modena, professor associado e coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O pesquisador lidera estudos na Amazônia, incluindo áreas ao longo da rodovia BR-319, onde investiga vírus já conhecidos e outros ainda não descritos.
Representação de um vírus
Tmaximumge / Pxhere
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1:
Mudança em rio há 5 milhões de anos explica nova espécie de peixe vermelho em MG
Cidades 'escondem' quase 2 mil espécies de abelhas, revela pesquisa
Pedras e cristais podem intoxicar? Geólogo explica o que é mito e o que é risco real
O reservatório invisível e o risco de transmissão
Vírus são estruturas compostas por material genético (DNA ou RNA) envolto por proteínas, e, em alguns casos, por um envelope lipídico. Eles dependem de células hospedeiras para se replicar e estão presentes em praticamente todos os ambientes onde há vida.
Na Amazônia, a alta biodiversidade também se reflete em uma enorme diversidade viral. Esses vírus podem infectar desde microrganismos até plantas e animais vertebrados, incluindo aves e mamíferos.
Desmatamento feito para criar área de pasto
Divulgação
Segundo Modena, os vírus com maior potencial de risco para humanos são aqueles capazes de infectar organismos de sangue quente ou que apresentam amplo espectro de hospedeiros.
“Dentre esses, os vírus que infectam aves e mamíferos, ou aqueles com amplo espectro de hospedeiros, como os arbovírus, representam maior risco para humanos”, explica.
É nesse contexto que ocorre o chamado spillover, quando um vírus consegue ultrapassar a barreira entre espécies e infectar humanos. Se houver transmissão sustentada entre pessoas, podem surgir surtos ou epidemias.
A ação humana tem papel central nesse processo.
“A abertura de estradas, o desmatamento e outras atividades humanas na floresta aumentam o contato entre humanos, vetores e animais naturalmente infectados”, afirma o pesquisador.
Ele destaca que a degradação ambiental rompe barreiras naturais que antes limitavam esse contato. “A fragmentação da floresta desloca animais silvestres e vetores, aproximando esses organismos das áreas ocupadas por humanos e criando condições para a transmissão de vírus”, diz.
BR-319 e a expansão do risco
BR-319
Foto: Reprodução/Rede Amazônica
A rodovia BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM), tornou-se um dos principais pontos de estudo da equipe da Unicamp. A estrada atravessa áreas extensas de floresta e tem sido associada ao avanço de ocupações humanas e atividades econômicas.
Segundo Modena, a abertura e reativação de vias como essa ampliam o risco de circulação de vírus.
“A estrada leva pessoas, animais domésticos e atividades econômicas para áreas remotas, criando novos pontos de contato entre humanos, animais e vírus”, afirma.
Ao longo da rodovia, comunidades vivem próximas a áreas de floresta preservada. O contato frequente com o ambiente natural pode deixar marcas no sistema imunológico dessas populações, registradas na forma de anticorpos.
Registro de uma transmissão colorizada de numerosas partículas de vírus
NIAID
“O perfil de anticorpos dessas populações pode refletir o histórico de exposição a vírus circulantes na floresta e indicar a diversidade viral com potencial zoonótico”, explica.
Em contraste, regiões mais desmatadas ao longo da BR-319 apresentam outro cenário. A expansão da pecuária e da agricultura altera profundamente o ambiente e pode favorecer a circulação de patógenos em novos contextos ecológicos.
Arbovírus e ameaças emergentes
Entre os principais focos da pesquisa estão os arbovírus, transmitidos principalmente por mosquitos e outros artrópodes hematófagos. Esse grupo inclui vírus conhecidos, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
Vacina contra a dengue
Paulo Oliveira/TV TEM
Além deles, cientistas monitoram vírus menos conhecidos, mas com potencial de expansão, como o Oropouche e o Mayaro.
O vírus Oropouche causa uma doença febril semelhante à dengue e, em alguns casos, pode evoluir para complicações neurológicas. Estudos recentes também investigam possíveis efeitos em gestantes, embora essas associações ainda estejam em análise.
De acordo com Modena, mudanças ambientais podem influenciar diretamente a evolução desses vírus.
“Eventos como o rearranjo genético permitem o surgimento de novas variantes, especialmente em regiões com alta circulação viral e presença intensa de vetores”, afirma.
Após surgir em áreas mais isoladas, o vírus pode alcançar centros urbanos e se espalhar com mais rapidez, inclusive por meio de deslocamentos humanos.
“Vírus inicialmente restritos a ambientes silvestres podem, sob determinadas condições, emergir, adaptar-se e se disseminar em larga escala”, diz.
Vigilância e papel das comunidades
Para antecipar riscos, pesquisadores utilizam tecnologias como a metagenômica, que permite identificar material genético de vírus em amostras ambientais e biológicas. A estratégia inclui a análise de insetos, roedores e também de amostras humanas.
Igarapé, no arquipélago do Marajó, no Pará - floresta Amazônica
Rafael Aleixo/g1
Segundo Modena, a participação das comunidades locais é essencial nesse processo. “O monitoramento de sintomas em humanos e animais, aliado à vigilância ambiental, permite detectar precocemente possíveis ameaças”, afirma.
A equipe também desenvolve ações práticas nas comunidades estudadas, como orientação sobre controle de roedores, acesso à água potável e medidas básicas de saneamento.
“Condições adequadas de renda, educação e saúde são fundamentais para que essas populações atuem como aliadas na conservação ambiental e na prevenção de doenças”, destaca.
Apesar dos avanços científicos, grande parte da diversidade viral da Amazônia ainda é desconhecida. Para os pesquisadores, o principal desafio é manter o equilíbrio entre desenvolvimento e conservação.
“Nosso conhecimento sobre a virosfera ainda é limitado. O que sabemos é que mudanças ambientais aumentam a probabilidade de contato com vírus e criam condições para o surgimento de novas doenças”, conclui Modena.
O cenário reforça a necessidade de monitoramento contínuo e de políticas que considerem a saúde humana, animal e ambiental como parte de um mesmo sistema.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente